O bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade mexeu com a curiosidade vívida de Jade Míguez. Há quase nove anos, ela sentiu que deveria compartilhar o conhecimento que encontrou nas salas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) — o que incluía ideias e debates feministas.
Segundo a jovem, a ideia era simples: criar um espaço online para registrar o que estava aprendendo. Não havia meta de seguidores nem planos de crescimento a longo prazo, mas as publicações do perfil começaram a ganhar visibilidade mesmo assim: “não era meu objetivo ser uma ciberativista. Essa posição foi acontecendo e, com o tempo, aprendi a gostar dela”.
Atualmente cientista social em formação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Míguez segue administrando a página @somosasnetasdasbruxas, que acumula mais de 350 mil seguidores no Instagram e segue uma linha de coletividade feminina.
“Já encontrei mulheres que me disseram que, antes de me acompanhar, nunca tinham pensado sobre feminismo, sobre gênero, sobre tantas outras coisas. E hoje, depois de anos seguindo meu conteúdo, elas despertaram para questões que achavam que nunca perceberiam. Isso é muito potente e também muito sério”, analisa.
De fato, o avanço tecnológico mudou as formas de percepção e recepção do mundo para a população feminina. Porém, se alguns consideram difícil definir um senso de comunidade em meio a tantas possibilidades de conexão, o caso de Jade demonstra que as mulheres têm o feminismo como bússola histórica.
De reivindicações pioneiras a discussões globalizadas, o movimento esteve à frente de transformações emblemáticas e continua deixando sua marca em todos os setores da contemporaneidade, bem como impactando as relações de poder, aprendizagem e apoio desenvolvidas entre mulheres.
Disputas, conquistas e interseccionalidade: a herança feminista
Antes de firmar-se como um fenômeno organizado e reconhecido, a busca pela superação dos desafios impostos pela desigualdade de gênero estava concentrada em mulheres que produziam textos argumentativos criticando os ideais machistas de suas épocas e engajavam-se em determinadas ações coletivas para reivindicar direitos.
Próximo ao início do século XX, o movimento feminista invade o debate público com maior força e dá início a uma série de pressões diretas à ordenação das sociedades. Desde então, sua trajetória começa a ser dividida e contada por ondas — periodização que ressalta conceitos e manifestações que tiveram maior simbolismo histórico.
O reconhecimento dos contrastes, objetivos e resultados das mobilizações feministas é considerado fundamental para “compreender como as mulheres se movimentaram ao longo do tempo, passando resistência umas para as outras”, conforme descreve a professora de Teoria e Metodologia da História e doutoranda em História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Tainara Vasconcellos. Paralelamente, esses retratos também ajudam na compreensão dos desafios dispostos dentro da própria comunidade feminina.
A Primeira Onda nasce em meados do século XIX e se estende até a primeira metade do século XX, sendo determinada pela reivindicação dos direitos ao voto e ao acesso igualitário à educação. Houve grande destaque para as sufragistas (mulheres instruídas e pertencentes a classes sociais mais altas), que organizavam protestos ativos e até mesmo radicais em diversos países.
Nesse período, muitos grupos feministas não mediram esforços para chamar a atenção das autoridades. Algumas mulheres mostravam estarem dispostas a ser presas, feridas ou mortas pela causa. Às margens dos holofotes, as mulheres operárias lutavam por melhores condições de trabalho, reunindo-se em sindicatos separados dos homens.
Ao analisar as mobilizações estadunidenses dessa época, a historiadora Estelle Freedman observou que comunidades exclusivamente femininas contribuíram essencialmente para o avanço social e de consciência do feminismo. Em 1890, diversos clubes femininos se formaram à medida que o Movimento Sufragista se intensificava. Já em 1914, cerca de um milhão e meio de pessoas eram filiadas a essas organizações.
Inicialmente, os clubes atraíam mulheres que queriam fazer amigas, mas esse processo inevitavelmente começou a moldar as visões políticas e sociais de suas integrantes, encorajando-as a se mobilizarem através dos chamados “programas de reforma cívica”. O impacto das reuniões femininas foi tão grande que facilitou, inclusive, a abolição de hierarquias baseadas em gênero em alguns espaços públicos do país.
Por outro lado, Vasconcellos lembra que as desigualdades de raça e classe já se mostravam um aspecto relevante nos bastidores do movimento. “Dentro dos lares das sufragistas brancas, com seu aval, existiam mulheres negras sendo subalternizadas e em situações análogas à escravidão. E isso de forma nenhuma é apagar o fato de que tinham mulheres negras reivindicando o voto e questões relacionadas à sua existência nessa mesma época”, defende a historiadora.
Dezenas de figuras femininas foram importantes para as conquistas vistas na Primeira Onda, tais como Elizabeth Stanton, presença central no movimento sufragista estadunidense; Sojourner Truth, ativista feminista e abolicionista conhecida pelo discurso “E eu não sou uma mulher?”; Millicent Fawcett, líder da frente de união de várias sociedades de sufrágio na Inglaterra; Huda Sha’arawi, fundadora da União Feminista Egípcia; e ativistas operárias como Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin.
No Brasil, a corrida por emancipação política e educacional também aconteceu, ganhando fôlego por volta dos anos 1920. Uma das grandes personalidades dessa fase foi a educadora Nísia Floresta, que fundou o primeiro colégio destinado a meninas no país, bem como criou um modelo pedagógico revolucionário que oferecia a elas o mesmo nível de ensino disponível para estudantes do sexo masculino.
“De forma geral, quando as mulheres se casam, elas saem de perto de suas companhias e vão para perto das companhias do marido. Muitas reclamavam de ficar em casa o dia inteiro, fazendo muita coisa, mas sem fazer algo que era, de fato, considerado produtivo. Mas, quando saem para estudar e trabalhar, elas retomam essa potência de conversar entre si. Esses movimentos tiram a mulher dessa situação de platô emocional”, sinaliza Tainara.
Entre as décadas de 1960 e 1980, a Segunda Onda feminista trouxe questões ligadas à sexualidade e à autonomia da mulher no contexto familiar, como os direitos reprodutivos, a saúde feminina, a violência doméstica e o trabalho doméstico não remunerado.
As principais contribuições teóricas desse período vieram de Simone de Beauvoir com O Segundo Sexo, uma densa pesquisa sobre a condição feminina em diversos momentos da história mundial. Na obra, a filósofa propõe que o “ser mulher” não é determinado pelo sexo biológico, mas por uma construção social.
“[Socialmente], a mulher é tudo aquilo que o homem não é. A mulher é dotada de características que não são vistas como positivas. Tudo o que é considerado negativo acaba recaindo sobre a mulher. Essa categoria [de gênero] foi criada a partir desse binarismo de oposição e carrega essas contradições”, detalha Míguez.
Outra publicação significativa para a época foi A Mística Feminina, de Betty Friedan. No livro, a ativista associa a insatisfação de mulheres americanas brancas e de classe média a uma feminilidade culturalmente idealizada, voltada à família e ao casamento, que se fortaleceu após a Segunda Guerra Mundial.
Discussões sobre racismo e classismo dentro do movimento também ganharam maior destaque. Em 1981, Angela Davis publica a obra Mulheres, raça e classe, fornecendo novas análises históricas sobre esse contexto. Na mesma década, aparecem as primeiras manifestações do feminismo decolonial e pós-colonial, que reconhecem a forja do conceito de raça como uma opressão herdada do colonialismo.
No Brasil, Lélia Gonzalez esteve à frente das discussões sobre raça e da articulação da população negra por direitos. Na mesma época, periódicos e grupos feministas lutavam contra a repressão da Ditadura Militar (1964-1985). Entretanto, suas atuações eram desprezadas por grande parte do ativismo político então atuante, que considerava as pautas feministas secundárias em relação à redemocratização e às desigualdades econômicas.
Já durante os preparativos para o retorno do regime democrático, um movimento conferiu a ação e articulação femininas na Assembleia Constituinte de 1987/88. Composto por ativistas de múltiplas profissões, o chamado “lobby do batom” garantiu a participação de 26 mulheres na elaboração da Constituição Federal de 1988.
“A partir desse momento, nos foi habilitada a possibilidade de construir uma forma de pensar a nossa condição jurídica enquanto sujeitos de direitos, ou sujeitadas pela norma, dentro da estrutura de igualdade entre gêneros esquadrinhada pelo Estado”, explica Emanuella Denora, advogada e professora de Direito Constitucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A Terceira Onda começou nos anos 1990, mostrando que a continuidade do feminismo sofreria com dissensos e desafios externos. “Sempre que as coisas começam a evoluir em determinados sentidos, há movimentos de resistência contrários a isso”, enfatiza a socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich.
Medidas e políticas conservadoras contra as conquistas feministas se tornavam cada vez mais fortes em países como Estados Unidos e Inglaterra, aumentando o respaldo social de discursos que afirmavam que a luta das mulheres por igualdade havia sido superada.
Nesse cenário, novas teorias e reivindicações mostraram que a desigualdade ainda era constante e profunda, o que levou os debates feministas para outras direções. Uma delas foi apontada por Judith Butler, autora de Problemas de Gênero. Na obra, a filósofa defende que o gênero é fluido, não binário e performativo, ou seja, criado pela repetição de atos, que dão a ilusão de existir uma identidade natural e estável para todas as mulheres.
A ideia corroborou o surgimento de ramificações mais inclusivas dentro do próprio feminismo, como o transfeminismo (feito para e por mulheres travestis e transexuais, considerando suas vivências e particularidades). “Enquanto as mulheres cisgênero vivem desde sempre o sofrimento causado pela cultura machista, as mulheres trans passam pela dificuldade de serem reconhecidas e identificadas, social e publicamente, no lugar de mulheres”, caracteriza a psicóloga e mestra em Psicanálise pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Stella Spinillo.
Os trabalhos de Angela Davis, bell hooks e Audre Lorde também reverberaram nessa fase, reintroduzindo os debates sobre interseccionalidade — conceito cunhado por feministas negras que compreende a interação entre diversos fatores sociais, além do gênero, nas experiências tidas por distintos grupos de mulheres.
A partir de então, tal noção se converteu em um pilar feminista, permitindo a compreensão de que diferentes aspectos identitários podem se combinar e criar formas específicas e potencializadas de opressão.
“O feminismo negro é includente, porque, quando pensamos em raça, já pensamos em gênero. Então, todas as mulheres estão incluídas. Por isso, a interseccionalidade é essa ferramenta que possibilita pensar não só raça, gênero e classe, mas também sexualidade, mulheres com deficiência, enfim, esse leque tão amplo de marcadores sociais da diferença que sabemos que existe”, analisa Míguez.
Agora hiperconectada, a maré permanece revolta
Uma frente expressiva de historiadores e sociólogos compreende que os anos 2010 marcaram outra virada cultural para o feminismo. Centrado sobretudo nos tentáculos da violência sexual e na questão da representatividade, um conjunto de protestos nas ruas, coletivos femininos, campanhas nas redes sociais, novos sites e hashtags feministas representaria a chegada de uma Quarta Onda.
Com os fluxos ágeis, conectados e versáteis da internet, especialistas dizem que o feminismo se tornou mais mainstream: um empenho por mudanças políticas e jurídicas que, por meio de ferramentas tecnológicas, impacta profundamente e de forma inédita as instituições e relações sociais.
A presença feminina já supera a masculina no ambiente digital — 90% das mulheres usam a internet diariamente versus 83% dos homens, como informa a Nielsen Media. A mesma pesquisa apontou o uso das redes sociais como a principal atividade online praticada pelo público feminino (80%), que também é quem mais acompanha influenciadores digitais (45%).
De acordo com a curadora de conteúdo sobre mulheres na história, Angelica Kalil, esse cenário permitiu a expansão para além do meio acadêmico de um campo de estudos interdisciplinar que surgiu na década de 1960. O objetivo? Examinar as construções sociais e culturais de poder, destacando a relevância das contribuições femininas.
Expoente da área nas redes sociais, Dara Medeiros começou seu processo de conscientização ainda na adolescência. Hoje residente em São Paulo, a pernambucana lembra de duas professoras que provocaram uma virada em suas perspectivas de vida: a de geografia, que criticava o machismo nas entrelinhas, e a de história, que era “senhora do seu destino”.
Após o fim do ensino médio, sentindo falta de trocar conhecimentos, ela percebeu uma lacuna: se tivemos grandes líderes como Cleópatra e Dandara, porque só aprendemos sobre Napoleão Bonaparte e outras figuras masculinas nas escolas? Assim, nasceu a página @mulheres.historicas. Até o momento, a iniciativa dedicada a celebrar o protagonismo feminino soma mais de 440 mil seguidores no Instagram.
“Estou lá até hoje, obviamente com mudanças de posicionamento e comportamento, sendo uma criadora de conteúdo completamente diferente. Mas ainda bem que eu comecei, ainda bem que eu errei. Sei que, de alguma forma, acabo impactando, porque recebo feedbacks e fico muito feliz com isso. Ao mesmo tempo, sei que devo ser cada vez mais responsável sobre o que comunico”, pondera a ativista.
Para a internacionalista e mestra em História Global pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Manoela Veras, a História das Mulheres ainda não atinge todos os pontos do Brasil de maneira equilibrada, mas sua difusão ajuda o público feminino a se conectar cada vez mais. Há quatro anos, ela apresenta o podcast Olhar à Veras, que visa democratizar a educação sobre o campo e áreas correlatas, como estudos feministas e étnico-raciais.
Outro avanço propiciado pela internet foi a ampliação do acesso a recursos de saúde mental para mulheres. Também produtora de conteúdo digital, a psicóloga Lavínia Palma conta que terapias de abordagem feminista permitem que as pacientes entendam os sofrimentos gerados pela cultura machista em que estão inseridas e, dessa forma, desenvolvam habilidades de fortalecimento e autocuidado.
Fundadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Feminista, que capacita profissionais da área em todo o país, ela ressalta a importância da coletividade feminina para enfrentar estruturas metodológicas e científicas que advêm de uma perspectiva majoritariamente masculina. “Esse letramento de gênero é fundamental para construir novas teorias e narrativas sobre o que é ser mulher”, analisa.
Desafios digitais refletem preocupações reais
Embora a atual fase do feminismo evidencie que não há uma grande distinção entre homens e mulheres quanto à posse dos equipamentos tecnológicos, como celulares e computadores, estudos revelam que suas formas de uso continuam refletindo papéis tradicionais de gênero.
Para as mulheres adultas, a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) está intensamente associada à manutenção das tarefas domésticas e dos cuidados familiares, inclusive quando elas são profissionais com atividades externas ao lar.
No caso dos homens adultos, as plataformas acabam voltadas para a autopromoção e construção da imagem pública, além da busca por informações estratégicas, ligadas às áreas de esportes e finanças, por exemplo.
O mesmo contexto se estende para a digitalização do mercado de trabalho. Em 2019, por exemplo, pesquisadores de grandes universidades dos Estados Unidos constataram que, apesar de terem um número de publicações semelhante ao de seus colegas homens no X (antigo Twitter), mulheres acadêmicas da área da saúde tinham aproximadamente metade dos seguidores. Com progressões de carreira menores, elas também recebiam menos ofertas de palestras e pesquisas.
“Acabamos sofrendo situações ou deixando de ocupar espaços, não por uma baixa autoestima ou porque não somos capazes, mas porque temos uma engrenagem de mundo que não nos quer nesses lugares. Então, precisamos entender as estruturas que pautam a sociedade atual para deixarmos de individualizar questões e vê-las como coletivas”, ressalta Daniela Arrais, jornalista e co-criadora da contente.vc, plataforma que propõe diálogos para tornar a presença digital mais atenta e consciente.
Entre as questões plurais pautadas pelo veículo, estão as reações contrárias à expansão de direitos fundamentais para as mulheres, à conquista de maior autonomia e ao aumento da participação feminina na vida pública, sobretudo em ambientes online.
Segundo levantamento feito pelo portal em 2024, conteúdos da temática “red pill” geram, em perspectiva mensal, cerca de US$ 4.900 de receita. Os principais alvos dos ataques promovidos nessas publicações são mulheres acima dos 30 anos, mulheres negras e mães solo.
No mesmo ano, um relatório produzido pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Ministério das Mulheres, mostrou que vídeos hospedados em canais do YouTube e que traçam o perfil da “machosfera” (rede de influenciadores e comunidades digitais masculinistas) totalizam mais de quatro bilhões de visualizações e 23 milhões de comentários.
Algumas das estratégias adotadas por esses grupos são a culpabilização e relativização de mulheres em situações de violência; a desqualificação da identidade de mulheres trans; e a propagação da cultura de submissão feminina de maneira geral.
Para Gabriella Feola, jornalista e mestra em Comunicação Digital pela Universidade de São Paulo (USP), ao permitir que a sociedade de massas e os esquemas de comunicação deixem de ser hegemônicos, o ecossistema online gera comunidades múltiplas, mas nichadas.
Nelas, não há filtros para a reprodução de informações e discursos — o que possibilita o encontro de pessoas intolerantes e agressivas, além da cooptação de indivíduos confusos em relação a suas personalidades ou perdidos em meio às tensões políticas e sociais da contemporaneidade.
“O [conceito de] gênero mudou o mundo para as mulheres, e as discussões sobre gênero mudaram o mundo para os homens. Eu estava inserida num projeto de pesquisa sobre meninos, e eles não avançaram nas discussões sobre gênero como as mulheres vêm avançando há 50 anos”, completa a especialista.
Nesse cenário, as redes masculinistas são uma parcela da problemática, mas ideias reacionárias ao feminino conseguem ganhar força para além de seus participantes. Segundo dados da Central Nacional de Crimes Cibernéticos, as denúncias de misoginia na internet como um todo cresceram quase 30 vezes em cinco anos: entre 2017 e 2022, foram registradas 74,3 mil.
Ao mesmo tempo, medidas que auxiliam usuários a identificar informações falsas e crimes cibernéticos vêm perdendo espaço. Em janeiro de 2025, a Meta encerrou seu programa de checagem de fatos nos Estados Unidos, assim como extinguiu seu programa de diversidade e inclusão para a contratação de profissionais e reduziu as políticas contra abusos e discursos de ódio mundialmente.
Presidente da Toda Cidadã, organização que democratiza conhecimentos sobre política, sociedade e cidadania para mulheres, Gabriela Toso afirma não conhecer nenhuma mulher que trabalhe com ações de impacto social e que não tenha sido ameaçada pelo menos uma vez.
“As ameaças são constantes, ainda mais no contexto atual. Houve uma leve redução por um tempo, mas depois da eleição de Donald Trump [atual presidente dos Estados Unidos], a onda voltou com força. É interessante pensar como esses ciclos políticos afetam diretamente quem está nesse tipo de atuação”, analisa a comunicadora.
Além de participarem da linguagem política de representantes da extrema direita, os princípios masculinistas continuam sendo propagados por certos líderes religiosos e têm influenciado até mesmo movimentos antifeministas entre mulheres.
É o caso da tendência “tradwife”, que diz respeito àquelas que abandonaram suas carreiras para focar no trabalho doméstico e relatam que “servir sua família não é desperdiçar seu próprio potencial”. Uma busca pela hashtag nas redes sociais, que se tornou tão popular quanto o fenômeno “esposa troféu”, gera mais de 100 mil resultados.
“Elas mostram uma noção de vida feliz, como se a possibilidade dessas mulheres viverem o paraíso da vida doméstica tivesse sido tirada pelas feministas. Sendo que não foram as feministas, o próprio sistema capitalista colocou todo mundo para trabalhar”, explica Gerolimich.
Também de acordo com a socióloga, em geral, as novas gerações tendem a fomentar debates mais cuidadosos e complexos, mas discursos avessos aos direitos das mulheres são reformulados para se tornarem mais palatáveis com o passar do tempo.
“A base da subjugação e redução da mulher como um ser humano no mundo está ali. Isso não parou e continuará existindo. Precisamos sempre nos refinar, até nossos próprios olhares, para poder lutar contra isso”, conclui ela.
Verdades duras de engolir, vínculos em manutenção
Fora das telas, desigualdades nos centros de poder e decisão permanecem intensas. Estudos indicam que apenas 27% das cadeiras parlamentares do mundo são ocupadas por mulheres, valor muito inferior à meta de equidade de gênero da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, o índice é de 17,7%.
“A falta de representatividade feminina é um sintoma desse sistema, mas também um reflexo do medo que ele impõe. A ausência de mulheres nesses espaços coloca em risco não só novos avanços, mas também as conquistas que já alcançamos", propõe Toso.
A taxa de participação feminina no mercado de trabalho tem crescido, mas o panorama de inclusão ainda é restrito. “Quando falamos em diversidade em conselhos, por exemplo, é difícil falarmos em raça. Por isso, quando falamos em gênero, temos uma perspectiva bem limitada. Geralmente serão mulheres brancas, heterossexuais, de uma classe social abastada”, pondera Gabriela Augusto, fundadora da Transcendemos, empresa de consultoria em diversidade e inclusão.
Mesmo diante da conquista de mecanismos institucionais e jurídicos, abusos físicos, psicológicos e sexuais ainda são uma realidade frequente, como retrata Denora. Uma pesquisa realizada pelo Fórum Nacional de Segurança Pública mostra que 21,4 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. A maioria das vítimas eram mulheres negras (37,2%).
Para as integrantes da comunidade LGBTQIA+, os números também são alarmantes. Entre 2015 e 2022, houve aumento de 50% nos casos de violência contra lésbicas no Brasil, conforme registros do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan).
Já de acordo com o último dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 117 mulheres transexuais e travestis foram assassinadas no país no ano passado. O Brasil continua sendo a nação que mais mata pessoas trans no mundo.
Simultaneamente, as mulheres têm sido levadas à exaustão mental por uma série de fatores, como as múltiplas jornadas de atuação (dentro e fora dos lares), o sentimento de constante inadequação social e a pressão estética.
“Estamos submetidas às mesmas lógicas, não podemos responsabilizar individualmente ou caracterizar um conjunto de sintomas a serem tratados a não ser por meio da patologização, muito recorrente atualmente. Mulheres não sofrem de síndromes, mas do lugar social que ocupam”, salienta a psicóloga Julia Almeida.
Para Kalil, o conhecimento feminista proporciona uma visão profunda e transformadora para tantos obstáculos políticos, sociais e culturais. “Eu acho que é como colocar um óculos e ver tudo nítido. E, depois que você viu, você não consegue mais desver. É por isso que acho que muitas mulheres recusam o feminismo, porque ele dói um pouco, né? Você vê a verdade, você vê onde você está. Não é muito fácil, mas é libertador, porque você entende que aqueles buracos que você tem vêm de algum lugar”, observa a escritora.
Analisando cenários possíveis em um planeta que enfrenta constantes discursos extremistas e tentativas de deslegitimação de pautas de diversidade, especialistas enfatizam que não é necessário ter grande visibilidade midiática para discutir problemáticas ou influenciar mudanças positivas.
“Eu acho que, para compartilhar, não precisa ser criadora de conteúdo como eu. Não precisa ir para a internet e gravar um TikTok sobre isso, mas, às vezes, falar com uma amiga. Estamos cercadas umas das outras, seja por amizade, seja por uma prima em uma reunião de família. Vamos conversar um pouco, porque o maior ato revolucionário da minha vida foi ressignificar completamente a relação com a minha mãe. Eu cresci com muita raiva dela e entendi através do feminismo que, antes de ser minha mãe, ela é uma mulher e passou por uma vida que, talvez, eu mesma não suportaria”, comenta Medeiros.
Ainda que pesquisas sinalizem que os algoritmos não trabalham a favor da extensão do alcance de postagens que abordam temas como o feminismo, sempre é possível acompanhar e incentivar mulheres que constroem projetos e conteúdos em busca de um futuro mais igualitário para a população feminina.
“Um dos desafios para termos boas relações é termos uma ética feminista de ouvir aquela mulher antes de criticar, buscando a criação de uma irmandade. Porque os homens estão sempre unidos, passando pano para as diferenças que eles têm para construir algo em conjunto. Acho que precisamos falar das nossas diferenças ideológicas, mas visando expor que pensamos e aprendemos juntas também”, declara Veras.
A pauta feminista precisa seguir como uma prioridade que compreende e inclui todas as questões que atravessam a sociedade atual. Afinal, laços entre mulheres são atos políticos.