Cultura é ciência, futuro e substantivo feminino
Descubra qual o papel do apoio entre mulheres na diversificação do cinema e da literatura

Sagitariana de personalidade forte, Ágata coleciona mais de 20 desenhos gravados pelo corpo. Em uma conversa no começo do outono, a jovem exibia a assinatura de Thais, que também amava se expressar, registrada no braço direito.

“Minha mãe gostava muito de tatuagem. Gostava muito de filme ruim, de diva pop, de roupa espalhafatosa. Gente, estampa de oncinha é o que mais tinha no guarda-roupa da minha mãe”, recorda a estudante de jornalismo. Ela também enfatiza que, ao lado do avô, carinhosamente descrito como “one of the girls” (“uma das garotas”), a genitora inspirou os traços de independência e criatividade que a moldaram como pessoa.

Thais partiu repentinamente em 2023, mas seus costumes ainda vivem através da filha. Em meio ao processo de luto, bem particular para cada um, Ágata se vê resgatando o que aprendeu com a mãe em várias ocasiões: pintando as unhas enquanto espera o delivery de comida, lendo protagonistas femininas e até escolhendo qual série assistir. “Sempre tem um pedacinho dela ali”, enfim.

Alimentada pelas histórias e transformações do mundo, a arte rasga o tempo e atinge qualquer indivíduo que abre um livro ou liga a televisão. Para as mulheres, a proximidade entre o real e o fictício carrega construções sociais já conhecidas, como os vínculos de amizade e geracionalidade. Não à toa, o título favorito de Ágata é Little Women (2019), de Greta Gerwig.

Entretanto, a cultura consegue trazer significados mais agridoces para o imaginário em torno do público feminino. Íntima e popularmente, os desdobramentos do cinema e da literatura podem somatizar estereótipos históricos ou reescrever o legado das mulheres.

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Abraços e olhares de admiração nem sempre foram expressões comuns para as personagens femininas (Foto: reprodução/MUBI/AdoroCinema)

Luz, câmera e domin(ação)

Estima-se que o termo “cultura” ganhou o sentido antropológico repercutido na atualidade em 1871. Nas obras pioneiras do britânico Edward Tylor, o conceito ficou definido como o conjunto complexo e integrado de hábitos, crenças, morais, leis e quaisquer outros conhecimentos adquiridos pelos seres humanos em sociedade. Curiosamente, 24 anos depois, nasceria um dos principais pilares de aprofundamento e dispersão dessas práticas a nível global.

O cinema não só materializou os projetos iniciais de gravação, cópia e projeção de imagens em movimento, como permitiu que o ato de contar histórias atingisse um novo patamar de influência e engenhosidade. Moda, linguagem, economia e comunidade foram alguns dos setores impactados por uma poderosa ferramenta de comunicação, que caminhava, inclusive, por intenções educacionais, publicitárias e políticas.

Na era dos filmes mudos, por exemplo, Alice Guy-Blaché, Lois Weber, Mabel Normand e Cléo de Verberena conseguiram dizer muito. Algumas das primeiras cineastas da história, elas alcançaram certa visibilidade discutindo questões que permeiam a vida das mulheres até hoje, como trabalho doméstico, racialidade, imigração, aborto e dinâmicas de gênero. Contudo, suas obras eram subestimadas pelos estúdios e pela maioria dos espectadores.

Além de fragilizar o espaço disponível para o talento feminino nos primórdios da indústria cinematográfica, lugar que já era majoritariamente destinado a esposas ou filhas de homens socialmente prestigiados, essa tática de rejeição colaborou com a instituição massiva de representações irrealistas e limitadas das mulheres em cena, acompanhadas de um apagamento sistemático de suas contribuições.

“A tentativa de nos invisibilizar acabou por também invisibilizar as narrativas contadas por nós mesmas. Os holofotes nas produções masculinas, em geral, reproduziram uma noção negativa que a sociedade já tinha das mulheres, e o reforço disso foi sendo o parâmetro mais cômodo ao longo dos anos”, destaca a crítica de cinema filiada à Critics Choice Association (CCA) e à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), Fabiana Lima.

Um dos marcos mais simbólicos para a intensificação de estereótipos machistas e sexistas nas telonas aconteceu entre as décadas de 1920 e 1960, período em que os Estados Unidos se consolidavam enquanto potência cinematográfica. A Era de Ouro de Hollywood estabeleceu modelos específicos de produção e distribuição, impulsionando a ascensão de grandes estrelas e a popularização de gêneros que atingiram o status de clássicos, como musicais, dramas e suspenses.

Se a sexualidade feminina continuava sendo um aspecto relevante nos filmes da época, qualquer intenção progressista na abordagem do tema foi sufocada pela criação do Código de Hays. A partir de 1930, encontrando na autocensura uma maneira de barrar a regulamentação governamental, as pautas do cinema americano se tornaram moral e religiosamente mais conservadoras.

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Segundo a roteirista e curadora de cinema Carissa Vieira, mesmo com a extinção dos códigos restritivos, em meados do século XX, o tratamento hostil e repressivo contra o público feminino resistiu à passagem do tempo — dentro e fora dos sets de filmagem — por ter alcançado respaldo cultural.

“Temos uma lógica social extremamente patriarcal, então o cinema como um todo sempre foi muito patriarcal. Todo gênero cinematográfico é extremamente sexista, porque as questões sociais se refletem no audiovisual, assim como o audiovisual influencia a sociedade, então vai se criando uma estrutura cíclica”,
justifica ela.

Desse modo, o cinema também ganha o status de tecnologia de gênero em permanente evolução. “Quando pensamos em produtos culturais, como os filmes, não são coisas que estão servindo apenas para o entretenimento, mas para moldar comportamentos e nos ensinar como devemos nos sentir e performar, sendo nós homens ou mulheres”, especifica a psicóloga e Fundadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Feminista, Lavínia Palma.

Associado ao grande volume histórico de protagonistas masculinos, esse esquema assumiu consequências particulares em cada tropo narrativo. Nos filmes western, prevalecia um retrato de imponência natural dos homens, que subjugavam mulheres a diversos tipos de violência. Em longa-metragens de terror, havia uma dicotomia: embora pudessem receber mais tempo de tela, personagens femininas eram frequentemente ridicularizadas e massacradas caso não atendessem a determinadas expectativas sociais, sobretudo em termos de vida sexual.

O próprio conceito de amor sofreu constantes reajustes para perpetuar os ideais de inferiorização feminina, tornando o cinema uma fonte de idealização das relações afetivas. Especialistas apontam que, ao incorporarem o mito cultural de que o propósito existencial das mulheres está na busca pelo afeto dos homens, produções como animações infantis e comédias românticas ajudaram a naturalizar uma série de problemáticas que sempre deveriam ter sido questionadas.

“Gerações de meninas cresceram vendo histórias da Disney, acreditando que temos de encontrar um príncipe. Depois, os filmes também normalizam e relativizam abusos, como a questão do stalking. Vamos achando que isso faz parte do processo, que para nos relacionarmos com homens precisamos aceitar certas violências, mas não precisamos”, expõe Vieira.

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Crepúsculo, Simplesmente Amor e After são exemplos de longa-metragens que mascaram comportamentos tóxicos e abusivos em relacionamentos amorosos (Foto: reprodução/AdoroCinema/Veja)

De forma geral, ainda quando possuem carreiras bem sucedidas e sonhos que ultrapassam uma cerimônia de casamento, personagens femininas não se sentem completas ou suficientes se não mantêm um relacionamento amoroso. Elas movem céus e terra para satisfazer seus parceiros, muitas vezes desistindo dos próprios planos para ter a chance de um “final feliz”. Assim, a mágica cinematográfica se transforma em uma armadilha.

“Cria-se nas mulheres essa sensação de que o amor romântico é a magia da vida. E quem não quer magia na vida? Precisamos da fantasia para continuarmos existindo num mundo que é muito difícil. Mas é extremamente perigoso ficarmos na noção de que a magia só pode ser encontrada no amor romântico. As mulheres adoecem, porque elas não irão encontrar isso na prática”, explica Ingrid Gerolimich, socióloga, psicanalista e autora do livro Para Revolucionar o Amor.

Na contemporaneidade, enquanto os romances modernizam suas estruturas para corresponder aos debates sobre empoderamento feminino, o viés mitológico adquire novas roupagens nas plataformas de streaming. Para Gerolimich, um alerta sério está no fenômeno de ocidentalização dos K-dramas, produções audiovisuais de origem asiática.

O que não é visto, não é lembrado nem reproduzido

Ao projetar ficções que retratam mulheres como criaturas indefesas, intelectualmente inferiores e inseguras, o cinema criou “caricaturas limitadas”, conforme caracteriza Palma — um movimento que forneceu importância secundária às temáticas de gênero, etnia e classe que atravessam intensamente as vivências femininas. Os corpos e dilemas dos homens, em contrapartida, envelheceram tratados com riqueza de intenções e desdobramentos reais.

Tal cenário pode afetar negativamente percepções e atitudes tomadas na vida real. Estudos comprovam que mulheres tendem a se sentir mais emocionalmente conectadas a protagonistas femininas, já que as representações fílmicas configuram mecanismos de impacto psicológico e cultural.

No entanto, Carissa ressalta que essa propensão à identificação nem sempre resulta em compreensões mais positivas sobre o “ser mulher” em sociedade. “Temos personagens masculinos terríveis e torcemos por eles, porque isso sempre foi colocado. Durante anos, o cinema teve um olhar tão forte de pouca empatia com o público feminino que, se não formos educadas para desenvolvermos esse olhar, crescemos sem ter empatia por outras mulheres e tendo empatia por homens, mesmo quando eles fazem coisas horríveis”, analisa a roteirista.

Entrelaços · Entrevista | Carissa Vieira

Simultaneamente, as produções cinematográficas padronizaram a rivalidade feminina, retirando as mulheres do centro de suas vontades para destacar seu par romântico masculino ou reiterar as condições misóginas, homofóbicas e racistas do mundo. "Nos anos 2000, quando eu cresci, vários estereótipos foram reproduzidos sobre mulheres em filmes com público-alvo infanto-juvenil, principalmente quando falamos sobre pressão estética. Quantos filmes adolescentes fizeram jovens mulheres crescerem com uma noção completamente distorcida sobre seu próprio corpo? Até mesmo sua própria sexualidade?", lembra Lima.

A lacuna ideológica deixada pela falta de representações positivas de vínculos entre mulheres inspirou o “princípio da Smurfette”, proposto pela colunista Katha Pollitt em 1991 e nomeado em referência à única personagem feminina de Os Smurfs. O conceito refere-se a narrativas centradas em turmas variadas de amigos homens — os chamados “buddy films” —, que abrem espaço para apenas uma mulher, diversas vezes tratando-a de forma estereotipada e/ou sexualizada. Porém, essas histórias permanecem focadas em personagens masculinos, considerados o centro dos grandes acontecimentos.

O debate ganhou força nas redes sociais nos anos 2010, quando os Vingadores saíram dos quadrinhos para estender o fenômeno Marvel aos cinemas. Em meio aos seis heróis principais, Viúva Negra era a única potência feminina. Mas o mesmo padrão se repetia em sucessos da cultura pop como a trilogia de O Senhor dos Anéis e parte significativa da franquia Star Wars.

Outro aspecto comum a esses títulos? Todos reprovam no Teste de Bechdel, desenvolvido para avaliar e repensar a qualidade da representação feminina em diferentes produções culturais. Apesar de não trazer critérios específicos para mensurar parâmetros de diversidade e inclusão, a investigação de qualquer trama pode ser feita através de um roteiro com três perguntas:

  1. O filme tem duas ou mais personagens mulheres com nomes?
  2. Elas conversam entre si?
  3. O assunto da conversa é algo além de homens ou assuntos relacionados a romances?

Até hoje, quantidades expressivas das respostas obtidas pelo questionário não são satisfatórias. Por isso, obras que se concentram nos laços afetivos e geracionais, possíveis e existentes entre meninas e mulheres, propõem algo ligeiramente radical à indústria cinematográfica: de acordo com Politt, independentemente do gênero a que pertençam ou de quais conteúdos exploram, essas leituras repudiam a mensagem de que a população feminina é inerentemente coadjuvante da masculina.

Considerando tais circunstâncias, Fabiana acrescenta outras características que o público deve ter em mente ao observar os retratos femininos em cena: “é válido perceber até que ponto as motivações das personagens mulheres são estabelecidas, qual universo aquele filme retrata e até onde o longa está disposto a ir em seu arco dramático para que elas sejam suficientemente relevantes nas suas próprias histórias”.

Uma puxa a outra

Por trás das câmeras, o progresso é lento e parece ter estagnado. Segundo nova edição do relatório The Celluloid Ceiling, mulheres dirigiram 18% dos filmes de maior bilheteria entre 2018 e 2022, mas o índice caiu para 16% em 2024.

Ainda no ano passado, 70% dos longa-metragens de maior audiência nos cinemas dos Estados Unidos tinham dez ou mais homens em cargos-chave nos bastidores, enquanto apenas 8% apresentavam a mesma proporção de profissionais femininas envolvidas.

“Acompanho isso desde a minha adolescência: sempre que temos um pico positivo, damos uns passinhos para trás nos anos seguintes. Estamos numa época muito problemática, com governos de extrema direita e guerras. Normalmente, esses momentos são muito ruins para mulheres. Precisamos ter direitos. Se não tivermos direitos enquanto mulheres, não vamos conseguir fazer nada”, contextualiza Vieira.

Por outro lado, os dados revelam que elas abrem caminhos umas para as outras quando conseguem chegar lá. Entre as 250 produções analisadas em 2024, naquelas com pelo menos uma mulher diretora e/ou roteirista, as mulheres compunham 81% dos protagonistas. Já em filmes com diretores e/ou roteiristas exclusivamente homens, somente 33% dos personagens principais eram mulheres.

Aliás, em comparação aos longas liderados apenas por homens, projetos com pelo menos uma diretora também causaram um aumento expressivo na participação feminina em papéis criativos.

Em meio às limitações de gênero, a diversidade racial é um fator de preocupação. Mapeando as 98 diretoras atuantes nos 1.800 filmes mais populares nos Estados Unidos entre os anos de 2007 e 2024, um estudo realizado pelo Annenberg Inclusion Initiative, da Universidade do Sul da Califórnia, observou que 73% delas são mulheres brancas.

Mas a questão está além de Hollywood. “No Brasil, temos déficits absurdos quando falamos de mulheres negras fazendo longa-metragem. Dentro das salas de roteiro, antes da pandemia, eu muitas vezes era a única mulher, ou a única mulher negra”, completa Carissa.

Para especialistas, a própria atmosfera sentida durante as campanhas do Oscar de 2025 indica porque a inclusão feminina continua sendo um tema polêmico. Nas redes sociais, os debates levantaram pensamentos transfóbicos e machistas, assim como comentários mais incendiários sobre a rivalidade feminina.

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Em 2024, considerando os 250 maiores sucessos de bilheteria, 67,3% das protagonistas mulheres eram brancas; 17,4% eram negras; 6,4% eram asiáticas ou asiático-americanas; 4,3% eram latinas; 0,4% eram nativas americanas; e 0,4% eram árabes (Foto: reprodução/CBS/BBC)

Um futuro mais positivo depende de mobilizações organizadas e conscientes de que apenas a união feminina poderá impulsionar a representatividade.

“Se não consumirmos obras feitas por mulheres, sobre mulheres e até mesmo aquelas com um público-alvo majoritariamente feminino, não iremos propor discussões sobre os nossos temas e as nossas vivências. Precisamos de mulheres por todos os lados, diferentes, com opiniões diversas. Não podemos esperar dos homens uma iniciativa para começarmos a falar sobre nós mesmas. É preciso invadir espaços e tomar algumas rédeas históricas para romper com o status quo tão dominado pela perspectiva masculina todos esses anos”,
defende Lima.

Páginas da mesma história

No ramo literário, que também integra o circuito cultural retroalimentado pela sociedade, o panorama se assemelha à sétima arte. Ainda hoje, poucos sabem que o primeiro escritor registrado pela história foi uma mulher — a sacerdotisa e poeta Enheduanna, da Mesopotâmia. Esse contexto dificulta o entendimento de que os livros representaram uma ferramenta simbólica para a expressão e resistência femininas frente ao patriarcado.

Até o século XIX, as mulheres eram proibidas de realizar diversas atividades no universo ocidental. Se algumas restrições apareciam em leis e regulamentos oficiais, como o impedimento ao acesso a universidades, outras tinham caráter implícito, a exemplo da impossibilidade de publicar livros.

Em geral, o ofício da escrita era considerado incompatível com as funções domésticas e de cuidado culturalmente atribuídas à população feminina. Os talentos artísticos poderiam ser incentivados, de maneira limitada, durante a juventude de mulheres que constituíam famílias mais abastadas, mas aquelas pertencentes à população pobre ou mesmo escravizada trabalhavam desde a infância, sem a oportunidade de desenvolverem hobbies e habilidades.

Para burlar as normas sociais então vigentes, os métodos encontrados pelas interessadas em construir uma trajetória como escritoras foram a adoção de pseudônimos masculinos ou a publicação em completo anonimato. Assim, os títulos produzidos por mulheres poderiam ser melhor aceitos pelo público e pela crítica da época.

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Já no século XX, com o aumento da presença feminina no mercado de trabalho, a literatura passou a ser vista como uma ocupação possível para as mulheres. Entretanto, essa mudança não acompanhou a criação de soluções para os desafios impostos pelo mercado editorial, nem ultrapassou o apagamento promovido em uma área historicamente marcada pelo olhar masculino.

“Nas narrativas predominantemente escritas por homens, as mulheres eram retratadas como musas, objetos do desejo masculino ou figuras secundárias, sem autonomia ou voz própria. Esses estereótipos não só consolidaram a ideia da submissão feminina, auxiliando nas conquistas masculinas, mas também naturalizaram formas de violência simbólica, como a objetificação e a exclusão. O apagamento histórico das mulheres, especialmente as negras, indígenas e LGBTQIA+, reflete o silenciamento de suas contribuições na construção das sociedades”, detalha a escritora Lorena Pimenta.

Esse cenário posiciona a escrita em caminhos de luta, resistência e reconciliação. Para a autora Aline Bei, que trabalhou com protagonistas femininas ao longo de toda a sua carreira, o ato de centrar histórias em gerações de mulheres de uma mesma família proporciona uma amostra essencial de vida ao público, que passa a ter visões cada vez mais amplas sobre a identidade feminina.

“São mulheres únicas sendo atravessadas pelo tempo, pela época, por suas próprias singularidades. E sem uma avó, não há uma neta, né? Não há uma mãe. E todo esse conhecimento de dor também vai transformar as pessoas e abrir novas possibilidades para que um mundo mais justo e diverso surja”, comenta ela.

Entrelaços · Entrevista | Aline Bei

Vistas como pontes que aproximam realidades e criam redes de compreensão, as artes funcionam tanto como vertentes de expressão humana quanto como espelhos que escancaram contrariedades sociais e políticas continuamente esquecidas. Na busca por atingir mais adeptos, um dos maiores desafios enfrentados pela literatura nacional tem sido o estabelecimento de centros consumidores.

“Nos Estados Unidos e na Europa, livros podem alcançar 100 mil exemplares vendidos em 24 horas. No Brasil, vender cinco mil exemplares já é um grande feito. Isso é reflexo de uma economia fragilizada e de um sistema educacional falho, que mantêm grande parte da população estagnada. Em um país onde o custo de um livro pode equivaler à refeição de uma família pobre, o acesso à cultura e ao conhecimento se torna um privilégio restrito a poucos”, afirma Pimenta.

Ainda que mais escritoras estejam sendo publicadas, muitas dessas obras também não atingem a amplitude desejável por dificuldades de suporte e distribuição. Um levantamento do Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) mostra que os problemas aparecem primeiramente nas esferas mais altas do mercado literário.

Em 2024, 87% das editoras brasileiras incluídas na pesquisa revelaram possuir mulheres ocupando cargos de liderança. O índice de participação cai para 58% entre pessoas negras e integrantes da comunidade LGBTQIA+. Porém, 47% dessas empresas ainda não adotaram práticas de governança corporativa para assegurar a implementação de políticas e metas de inclusão.

"Hoje, uma das missões fundamentais da literatura feita por mulheres é não apenas criar um mundo diferente, com um imaginário mais inclusivo e representativo, mas também desconstruir os absurdos que foram estabelecidos ao longo da história. Precisamos de mais mulheres no comando de todas as esferas literárias — não só como autoras, mas como curadoras, editoras, tradutoras e, principalmente, como mulheres que têm o poder de moldar o que será dito e como será dito. Elas não escrevem apenas para si, mas para todas nós, criando um legado que vai além dos livros",
sinaliza Lorena.

O próximo passo mora no poder das palavras

Pouco depois de tornar-se mãe, o luto pela morte do irmão invadiu os dias de Daniela Arrais. Mas, quando sentiu o amor se misturar à dor, ela não teve dúvidas: precisava reencontrar os papéis e as canetas, suas ferramentas de vida, e escrever para se salvar.

“Eu ficava o tempo todo pensando: ‘Quem sou eu para escrever um livro? Quem vai se interessar? Será que isso é relevante?’. Foi quando me dei conta que o fenômeno da impostora permeia a minha vida há muito tempo, e permeia a vida de todas as mulheres que eu conheço. Quando cheguei nessa conclusão, percebi que ele seria o fio condutor do livro”, recorda a jornalista.

O processo criativo de Para todas as mulheres que não têm coragem envolveu a conexão de histórias de Daniela com relatos de um corpo feminino de diferentes idades, trajetórias e situações econômicas e sociais. De empresárias a apresentadoras de TV, desde Dandara Pagu até Mari Palma, todas as participantes afirmaram lidar com a sensação de que não fazem o bastante ou não são suficientes em alguma área do cotidiano. Um recorte de um retrato global: estudos apontam que sete em cada dez mulheres se sentem uma fraude diariamente.

De acordo com a autora, a obra tenta renovar os pensamentos das mulheres em uma realidade que nem sempre cria condições para vê-las sonhando.

"Acho que toda vez que uma mulher fala de si, ela está falando de outras mulheres também. Quando uma mulher se apropria da sua história, quando uma mulher resolve escrever a sua história, quando uma mulher resolve dizer ‘não’ para esse mundo que tenta dizer ‘você não vai ocupar os espaços’, ela está influenciando outras mulheres. Então, a gente vai se espalhando e conseguindo contagiar outras mulheres com a nossa coragem",
determina Arrais.
Entrelaços · Entrevista | Daniela Arrais

Para Angelica Kalil, mergulhar na literatura foi um jeito de mostrar o que as mulheres puderam fazer pelas sociedades quando trabalharam juntas. Ao lado da amiga e ilustradora, Amma, a escritora investigou dezenas de arquivos históricos para evidenciar os impactos das amizades femininas na ciência, na política e em vários outros saberes coletivos.

“Já é difícil encontrar a História das Mulheres, porque os registros oficiais foram feitos por homens que não entendem que os nossos feitos são importantes. Mas sobre mulheres que foram amigas é mais desafiador ainda, porque entende-se isso como algo fútil. Nesse processo, meu e da Amma, o mais forte foi ver que, da união das mulheres, ficou um legado para a humanidade”, afirma a curadora de conteúdo histórico.

Amigas que se encontraram na história foi o primeiro livro da série criada pela dupla, além de ter vencido o prêmio Jabuti na categoria juvenil em 2021. A escolha do gênero literário manifesta a importância da introdução de valores como tolerância, igualdade e respeito na educação de crianças e adolescentes.

“Todos nós temos valor, e isso para a infância é muito significativo. Os nossos livros não são para meninas, são para todas as pessoas. A gente não quer excluir os meninos. A exclusão é uma coisa do patriarcado, né?”, brinca Kalil.

Entrelaços · Entrevista | Angelica Kalil

Em 2019, a poesia uniu cinco mulheres que, durante uma visita à Bienal do Livro, perceberam que as mesas do evento, em sua maioria, ainda eram dominadas por homens. Em conjunto, elas decidiram destrinchar assuntos que não se restringiam à representação de gênero e sexualidade, mas se expandiam às relações familiares, ao abuso psicológico e até mesmo ao suicídio: tudo contado pelas mãos de quem viveu essas memórias. Assim, nasceu Chorar de Alegria, livro de Lorena Pimenta, Carol Stuart, Fernanda Gayo, Jéssica Barros e Maya Muniz.

“O que vivenciamos enquanto grupo foi único. Éramos, ao mesmo tempo, escritoras e, de certa forma, amigas. O objetivo foi dar voz a emoções que aparecem no cotidiano feminino, especialmente àquelas mulheres que não encontram espaços para expressar seus sentimentos. Cuidávamos das nossas vulnerabilidades mesmo quando nos deparávamos com incompatibilidades ou divergências. A força disso estava justamente na capacidade de acolher a dor e transformá-la em algo coletivo, que poderia ser compartilhado com o mundo”, reitera Pimenta.

Como mulher negra e integrante da comunidade LGBTQIA+, a escritora pretende idealizar títulos cada vez mais intensos: “a nossa maior vingança social contra as estruturas opressoras que tentam nos calar e nos reduzir é sermos felizes, plenamente felizes, com a coragem de reivindicar a alegria como uma forma legítima de resistência”.

Outra amante da leitura, Manoela Veras encontrou nesse universo uma via para lutar por autoconhecimento e pela liberdade feminina. Em 2023, a internacionalista criou o clube “Insubordinadas”, que reúne mulheres — residentes dentro e fora do Brasil — em torno do consumo de produções também escritas por mulheres. Inicialmente, títulos ficcionais e não-ficcionais eram apresentados; entretanto, desde o começo de 2025, ela optou por focar apenas em obras que discutem o feminismo.

“Lembro de ouvir relatos das participantes em que elas traziam essa ideia de se sentirem mais livres a partir da leitura. Ler mulheres que são conscientes da necessidade de combater o silêncio, buscar uma linguagem entre mulheres que nos represente e pensar em nossas temáticas, naquilo que nos atravessa, é um dos grandes avanços que conseguimos só porque estivemos com outras mulheres”, aponta Manoela.

Uma experiência parecida é relatada por Monique, que ingressou há alguns meses em um clube de livros virtual, inteiramente composto por mulheres. Aos poucos, as chamadas de vídeo para interpretar as produções literárias deram lugar às vivências particulares das integrantes, que passaram a marcar encontros presenciais para estreitar os laços.

Segundo a estudante de jornalismo, nada é tão gratificante quanto formar parcerias que possibilitem um dia-a-dia mais leve: “você quer coisa mais legal do que falar sobre a sua cantora favorita ou dar risada de um look com uma amiga? Essas são coisas estereotipadas, colocadas como exclusivamente femininas, mas que nos transformam e nos moldam”.

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Encontro do clube Insubordinadas realizado em janeiro de 2025 (Foto: reprodução/Acervo Pessoal)

A conexão gerada em debates entre mulheres sobre produtos culturais e gostos pessoais pode causar, inclusive, benefícios psicológicos. “Assim, temos condições de descolonizar o inconsciente feminino, porque vamos encontrar, nessas redes de mulheres, a possibilidade de imaginarmos futuros em que produzimos nossos próprios desejos. Essas relações despertam o lugar da autoestima, de nos sentirmos completas em nós mesmas”, esclarece Gerolimich.

No caso das novas gerações e dos próprios locais de circulação de opinião em ambientes digitais, é possível perceber movimentos de desnaturalização de padrões estabelecidos pela cultura midiática.

“Certos comportamentos que foram reforçados e justificados por muito tempo — como a sobrecarga do trabalho doméstico para a população feminina, a predestinação à maternidade, ao casamento e à heterossexualidade — passam a se tornar passíveis de indagação. Isso é crucial para um caminho em que incorrem menos violências consigo e com as mulheres à nossa volta, podendo questionar as trajetórias esperadas de nós”,
continua a psicóloga Julia Almeida.

Contestar as concepções sociais foi um passo fundamental para Gabriella Feola, que via tabus muito grandes quando o assunto era sexualidade, tanto em conversas com amigas quanto na organização dos veículos de comunicação. Gradualmente, ela notou que tudo tinha uma origem: seu núcleo familiar tratava a questão de forma diferente e, muitas vezes, mais aberta.

“Mesmo quando não há diálogo, há informação sendo transmitida. Então, quando a minha mãe falava comigo sobre qualquer coisa, menos sobre aquilo, a informação que estava sendo transmitida era que aquilo não poderia ser dito. A escola também é um ponto de formação da nossa sexualidade, ainda que não proponha nenhum diálogo sobre isso. A gente se forma enquanto pessoa em contato com a sociedade. É importante entender como a nossa sexualidade, como o nosso entendimento de construção enquanto mulheres, cis ou trans, passa por essas falas e também por esses silêncios”, especifica a jornalista.

Dessas descobertas, veio a vontade de contar histórias sobre o tema para que, vendo-se representadas, as pessoas se sentissem provocadas a ter conversas mais vulneráveis. O resultado foi a obra Amulherar-se, que acompanha situações reais que percorreram quatro famílias, capturando como a sexualidade de avós, mães e filhas se estabeleceu em momentos distintos.

Hoje, aos 31 anos, Gabriella lembra com carinho das mensagens que recebeu dos parentes das personagens, especialmente dos altos e baixos da vida de Lola, que a inspiraram a ressignificar a sua.

Para algumas mulheres, as formas de cultura são uma válvula de escape. Para outras, uma reafirmação em cor viva ou texto impresso das mazelas que nunca deveriam ter existido. Mas, para todas, podem significar a oportunidade de mudar o jogo aproveitando o poder da equipe.

“As mudanças que passei foram consequência do contato com todas essas mulheres, principalmente com as mais velhas, porque, às vezes, a gente vive num mundo em que a gente pensa: ‘minha história é única’. Mas não, nossas histórias são universais”,
finaliza Feolla.