Por que aprendemos a nos odiar se estamos conectadas?
Entenda os mecanismos históricos e sociais que tornaram a rivalidade feminina um fenômeno cultural possível

Uma das sete mulheres de sua extensa família, Shay passou a infância rodeada de livros, enciclopédias e uma alta dose de testosterona — eram avôs, tios e primos por todos os lados. Cresceu apaixonada pelas culturas estrangeiras estampadas nas páginas que lia e inevitavelmente influenciada pelos costumes que experenciava em casa.

Natural de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, ela conta que, mesmo cultivando algumas amizades femininas pelo caminho, chegou ao ensino médio pensando que conviver e lidar com homens era mais fácil.

“Durante a minha adolescência, isso foi uma coisa que pesou. Porque, ao mesmo tempo que eu queria ter mais amigas, eu não sabia como fazer amizade com meninas e me sentia muito excluída. Eu gostava de muita coisa e tinha aquela concepção errada de que o feminino era algo ruim”,
relembra a publicitária, hoje com 23 anos.

Nathália também não sabia como corresponder aos ideais de feminilidade nem como se relacionar com as garotas ao seu redor. Em certas ocasiões, mudou o guarda-roupa, o jeito de falar e até a própria personalidade tentando ser incluída nos grupinhos da escola. Mas um desconforto ainda maior surgiu na vida adulta, assim que ingressou no mercado de trabalho.

Auxiliar de produção e embalagens, ela não só precisou se adequar a um ambiente majoritariamente masculino, como enfrentar embates frequentes com as poucas mulheres contratadas pela indústria.

“Imaginei que encontraria acolhimento nas mulheres mais velhas, acreditei que seriam mais experientes e compreensivas, talvez até por já terem passado por situações parecidas. Foi um choque perceber que, muitas vezes, elas se mostravam mais críticas e competitivas. É como se estivessem armadas, sempre preparadas para apontar falhas”,
relata a estudante de medicina veterinária, que mora no interior de São Paulo.

As jovens não se conhecem, mas as contradições notadas por elas não são frutos do acaso. Em algum momento de suas vidas, as mulheres aprendem a não se reconhecerem como iguais e a criarem barreiras umas contra as outras. É um tipo de comportamento tácito que não se comprova cientificamente, no entanto, continua sendo reverberado de geração em geração, inclusive, de mulheres para meninas.

Na escola, no emprego, no barzinho e na igreja: elas estão fofocando sobre você ou prontas para puxar seu tapete. São invejosas, falsas e ardilosas, além de terem apreço por futilidades que não moldam caráter nem impulsionam o sucesso das civilizações. Tudo isso é “coisa de mulher”. Mas será que sempre foi assim?

mosaico representando mulheres na arte e na mídia
Da arte à representação midiática, as relações femininas comumente ganham tons sombrios (Foto: reprodução/Variety/Pinterest)

No princípio, não era guerra

Assim como outras estruturas reconhecíveis na sociedade, os vínculos desenvolvidos entre mulheres existem há milhares de anos e sofreram consideráveis mudanças a partir das transformações de sistemas políticos, culturais e econômicos.

Na obra Os Patriarcas - Como os Homens Chegaram a Governar, a jornalista britânica Angela Saini afirma que a humanidade está acostumada a tomar padrões sociais como traços naturais de organização, esquecendo que essas noções de realidade foram construídas e propagadas por seres humanos.

Para ilustrar a questão, Saini recorre a estudos antropológicos que confirmam a atividade de aproximadamente 160 comunidades matrilineares ao redor do mundo. Tratados pela maioria dos dicionários e historiadores como “hipotéticos”, esses grupos têm suas descendências e heranças traçadas através da linha feminina (ou seja, através da mãe e suas ancestrais), apresentando particularidades quanto aos exercícios de liderança e jurisdição que recaem sobre as mulheres até os dias de hoje. São sistemas de parentesco, diferentemente dos matriarcados, que configuram sistemas de poder.

Legítimos ou não, os questionamentos sobre a origem e permanência dos modelos mulheris de sociedade remontam ao passado da figura feminina. Um passado já reconhecido por pesquisadores, em que as mulheres eram consideradas sagradas por gestarem e conceberem novos indivíduos, enquanto os homens não eram vistos como sujeitos menores: havia uma organização mais propensa à igualdade entre gêneros.

Na pré-história, por exemplo, a cultura de vida e trabalho era cooperativa, o que permitia o desenvolvimento de relacionamentos casuais e espontâneos, pautados em afinidades. Também não existem registros de disputas por territórios nem de mecanismos de transmissão de herança ou autoridade nessa época.

Segundo a socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich, esses princípios sofrem alterações com o início da chamada cultura viriarcal, que categoriza o homem como detentor de poder seguindo critérios além da paternidade, como o potencial de força e agressividade. O viriarcado advém do sânscrito, onde “vir” significa “herói”.

“Entendemos que destruir uma sociedade não é só com canhão, não é só com bala. Você tem que destruir ela também dentro da cabeça das pessoas. No pensamento, na maneira como a gente se sente. [...] Todas as fake news da história, que são os mitos, foram construídas justamente para evitar que a mulher voltasse para aquele lugar de poder e força”, explica ela.

Aos poucos, a nova idealização fundou as bases do que viria a ser uma “organização social em que o poder é exercido por homens”, modificando as definições das relações humanas e relegando as mulheres a posições de passividade e inferiorização nas mais diversas situações do cotidiano.

Já na Grécia Antiga, filósofos como Aristóteles propunham que as mulheres não eram dotadas das virtudes e capacidades intelectuais necessárias para serem boas amigas.

Para especialistas, o mesmo motor discursivo pode ser observado no desaparecimento seletivo das deusas cultuadas pela antiguidade e na história de Adão e Eva, que fundamenta a origem da humanidade dentro das religiões cristãs. Nela, ao ser concebida a partir da costela do homem, a mulher é deslocada da possibilidade de ser um fim em si mesma.

“Há um trabalho sistemático para o apagamento das deidades femininas, colocando as mulheres em condições de subalternidade dentro do imaginário. Então, hoje, nós já temos a possibilidade de pensar nas religiões não só como locais de fé, mas também como ferramentas de manipulação”, analisa Tainara Vasconcellos, professora de Teoria e Metodologia da História e doutoranda em História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

deusas da antiguidade
Em sociedades estruturadas e operadas em torno de religiões que continham deusas, como Creta, Mesopotâmia e Ilhas Cíclades, há indícios de sacerdotisas que realizavam importantes rituais (Foto: reprodução/PEITA)

Embora todos esses aspectos tenham contribuído para a produção de noções negativas de feminilidade, pesquisadores e estudiosos concordam que nada impactou tanto a imagem pública das mulheres e suas relações familiares, afetivas e geracionais quanto a institucionalização do patriarcalismo — sistema que já se desenvolvia gradualmente sem ganhar uma nomeação exata, estruturando as situações de opressão sofridas pela população feminina no decorrer dos séculos.

“O patriarcado não é natural. Assim sendo, ele precisa ter elementos históricos, sociais e econômicos para garantir sua permanência. [Nesse sentido], uma das principais violências do patriarcado é nos isolar”, contextualiza Manoela Veras, internacionalista e mestra em História Global pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 

Mesmo que o método em questão estivesse expandindo suas raízes desde 3100 a.C., a união feminina continuava existindo e representando um poder simbólico, sobretudo nas sociedades ocidentais.

Antes do período feudal e durante sua vigência, as mulheres frequentemente cuidavam umas das outras, resistindo a condições adversas e coordenando a subsistência familiar. Em espécies de coletivos ou redes, elas criavam seus filhos, curavam, plantavam e ritualizavam a vida juntas. A passagem de saberes e conhecimentos entre diferentes gerações também era muito comum.

De acordo com a comunicadora sobre História das Mulheres e Feminismo, Dara Medeiros, tudo mudou com as primeiras tentativas de instauração do patriarcalismo que, associadas ao despontar inicial do capitalismo, permitiram o movimento de caça às bruxas.

“Não que o machismo não existisse naquela época, ele existia, mas não era cultural. Ele não era como o patriarcado que conhecemos hoje e as mulheres conheceram à frente dessa época feudal. Então, [a construção do] fenótipo da bruxa — uma mulher nariguda, velha, que vive na floresta com seu caldeirão —, foi o ponto central para que esses laços entre mulheres pudessem ser rompidos e atacados”, descreve.

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Ao longo de quatrocentos anos, a partir do século XV, a investida política e religiosa perseguiu, suprimiu e relativizou inúmeras manifestações de mulheres tidas como feiticeiras, sob a justificativa de preservar a ordem social então existente contra heresias, crimes e outras atividades condenáveis.

Na prática, esses propósitos acabavam distorcidos. Medeiros afirma que qualquer mulher viria a ser alvo dessa sistematização, uma vez que suas ferramentas visavam “transformar o corpo feminino em propriedade do Estado, da família patriarcal e da economia”.

Orquestrado pelas grandes frentes de poder da época, o trabalho de repressão também buscava fragilizar a capacidade de organização das mulheres. Segundo Vasconcellos, isso ocorreu porque, durante milênios, elas foram as principais responsáveis por rebeliões contra conjunturas sociais e econômicas que prejudicavam a vida dos cidadãos de modo comum, tanto na Europa quanto nas Américas.

No fim da Idade Média, por sua vez, essas lutas se concentraram especialmente no combate à fome sistêmica.

Escapar do rótulo de bruxa se tornou uma tarefa ainda mais desafiadora à medida que situações de não-conformidade com os ditames masculinos se tornavam problemas endereçados às mulheres. Quando homens enfrentavam dificuldades de performance sexual, por exemplo, suas aflições eram tratadas como resultados de feitiços, mau olhados ou maldições.

As reuniões femininas, em contrapartida, perdiam seu registro positivo no juízo popular. Tainara aponta que, com a ascensão da ordem patriarcal, a convivência entre mulheres foi entendida como uma ameaça: “percebeu-se que, juntas, as mulheres tinham algum tipo de potência. Então, elas passam a ser proibidas pelo Estado de ficarem uma na casa da outra. A conversa entre mulheres não só foi criminalizada, como rechaçada publicamente”.

Gerolimich ressalta o papel crucial da deturpação do sentido original da fofoca nesse cenário — fato investigado pela filósofa Silvia Federici na obra Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva.

Derivada do termo inglês “godparent”, que corresponde a “padrinho” ou “madrinha”, a palavra “gossip” inicialmente remetia às acompanhantes de parto. Mais tarde, já popularizada na linguagem, passou a indicar as amizades femininas que eram particularmente fortes e tinham importância na vida pública.

Após o século XVI, entretanto, os encontros de mulheres deixaram de ser considerados momentos de debates culturais e revitalização espiritual, ganhando o status de oportunidades calculadas para a propagação de futilidades e até do próprio mal.

“A Igreja também começou a dizer que nada de bom saía daquelas uniões e que as mulheres tinham uma propensão maior a serem malignas. Então, a própria origem da palavra ‘inveja’ vem do ‘olho maligno’ da bruxa”, expõe a socióloga.

Surgiram ainda multas para punir discussões femininas em público e proclamações que ordenavam maridos a controlarem suas esposas, além de instrumentos de tortura que violavam a boca e a língua das mulheres, criados para punir aquelas que infringissem tais regras. Assim, a fofoca parou de representar uma parte integrante da sociedade para significar “uma mulher envolvida em conversa fiada”.

Mais de 500 anos depois, Vasconcellos propõe uma reflexão: “Não sei se vocês já pararam para pensar, mas conversas entre homens viram teorias, e conversas entre mulheres, fofoca. Tudo que começamos a teorizar é minimizado, rejeitado e trabalhado como uma questão de mesquinharia. E aquilo que homens conversam entre si, que pode ser a maior barbaridade do mundo, é levado à superioridade”.

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Estima-se que 90 mil mulheres tenham sido julgadas pela prática de bruxaria entre os anos de 1450 e 1750; desse total, 45 mil foram executadas (Foto: Reprodução/O Globo)

As bruxas que não conseguiram queimar

Impedidas moral e legalmente de manterem vínculos íntimos entre si, as mulheres ficaram mais restritas ao ambiente doméstico. A partir de então, o conceito patriarcal de família pôde começar a se estabelecer, atribuindo à população feminina uma propensão supostamente instintiva ao cuidado do lar e dos filhos.

Os homens brancos e mais abastados, por outro lado, não encontraram obstáculos para adentrar e dominar múltiplos espaços de poder e decisão, consolidando-se como os sujeitos cartesianos das grandes civilizações. “Para haver alguém elevado, alguém precisa ser diminuído. Isso cria a noção de feminilidade que nós temos no século XVIII”, enfatiza Tainara.

Mas esse contexto não proporcionou uma queda nas iniciativas femininas em busca de condições dignas de vida. Pelo contrário: as sucessivas tentativas de sujeição das mulheres com base em transformações históricas causaram novos ciclos de revolta e resistência. Para se ter uma ideia, tanto a Revolução Russa quanto a primeira greve geral realizada no Brasil foram iniciadas por elas.

Estudiosos mencionam que um dos exemplos mais emblemáticos para entender a complexidade dessas lutas está na Revolução Francesa. Embora tenham participado ativamente das mobilizações do período, escrevendo manifestos e reivindicando direitos elementares nas ruas, as mulheres não apenas tiveram suas demandas ignoradas pelos líderes da época, como desapareceram dos principais registros históricos do movimento.

Ainda assim, os princípios de igualdade entre gêneros defendidos pelos trabalhos de ativistas como Sophie de Condorcet e Olympe de Gouges permaneceriam vivos e inspirariam os primeiros passos alicerçados do feminismo, que surgiu sob esse título e enquanto uma manifestação social no fim do século XIX.

Entre as novas maneiras de organização e manutenção dos grupos femininos, estava a persistência das “histórias vistas de baixo”. O termo é frequentemente usado para definir vivências que não atravessam a linha histórica tradicional, geralmente marcada pelos feitos de povos que detêm voz e poder; mas que, apesar disso, se constroem como túneis e procuram respiros na superfície quando possível.

Construindo-se às margens para pleitear o centro das discussões, a história das mulheres foi um desses momentos escritos e reverberados por suas próprias agentes. “Vemos a história das mulheres em cartas, em diários e no relato oral. E muito do relato oral conta do tempo que as nossas avós viveram: como era essa situação, naquela cidade, naquela classe social que elas estavam”, revela Veras.

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A canadense Linda Costain, que vive nas Ilhas da Rainha Carlota, levou os relatos orais de sua linhagem para a internet: ela publica cartas escritas pelas mulheres de sua família a suas mães entre os anos de 1910 e 1980 no site “A Family History in Letters” (Foto: reprodução/Linda Costain)

Dessa forma, o fator geracional começa a caracterizar um rito de passagem de conhecimentos entre as mulheres, ao mesmo tempo que serve como instrumento para pautar as reivindicações e necessidades femininas. Segundo a historiadora, a mesa da cozinha emerge como uma continuação de ambos os significados.

“Por mais que esse seja um espaço de trabalho doméstico, que condiz com a subordinação da mulher aos cuidados da casa, a mesa da cozinha também tem uma subversão. Então, quando nos reunimos na cozinha para falar com outras mulheres, a gente não apenas está subvertendo o distanciamento feminino, mas mantendo uma herança muito preciosa que nos é negada”, diz Manoela.

Mesmo sendo ambientes que não seguem o formato típico dos debates de militância, as mesas das cozinhas se tornam as bases materiais das relações femininas dentro dos lares, permitindo o desenvolvimento da escuta ativa, do aprendizado em rede e da criação coletiva.

Porém, se a maioria das conversas entre mulheres poderia acontecer em meio aos afazeres domésticos, o mundo fechava olhos e ouvidos para a oportunidade de expansão dos diálogos. Nesse ritmo, o avanço do projeto patriarcal fortalecia os grupos masculinos enquanto permanecia rejeitando e apagando a população feminina.

“Quando crescemos sem referências, acabamos acreditando que o mundo sempre foi dessa forma. Temos diversos fatores operando dentro desse sistema, que se vale dessa cultura de colocar as mulheres nesse lugar de invisibilidade, de tirar a contribuição das mulheres da história da humanidade para dizer: ‘você não é ninguém’”, constata Jade Míguez, graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e pesquisadora de Gênero, Raça e Classe.

Amor, mercado de trabalho e outras distorções sociais

Negando a existência de cidadania, o deslocamento forçado da vida pública também trouxe um vazio existencial para as mulheres, que não poderia ser preenchido apenas com a incumbência do trabalho doméstico e não-remunerado. Desse modo, nascem as faíscas do mito do amor romântico, que redireciona o valor feminino à capacidade de nutrir e manter um relacionamento amoroso.

Gerolimich conta que essa construção teve origem em brincadeiras da Idade Média feitas por cavaleiros, que satirizavam amores impossíveis numa época em que casamentos não possuíam a função de selar romances, mas de dividir poder e riquezas dentro dos círculos de famílias nobres.

Sem perder-se no tempo, o princípio do amor romântico foi retomado e repaginado em meio à Primeira Revolução Industrial, que modificou a dinâmica econômica e social das cidades europeias, bem como intensificou as desigualdades contidas nos papéis de gênero.

“As pessoas pobres também passaram a se casar, porque as famílias começaram a se transformar em núcleos de controle social. Vão criando-se mecanismos e discursos. Então, esses homens tinham o papel de controlar essas mulheres”, esclarece Ingrid Gerolimich, autora do livro Para revolucionar o amor.

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Através dos movimentos de Revolução Industrial, as mulheres passaram a ser requisitadas e a entrar em grande número no mercado de trabalho, geralmente em condições precárias e com salários inferiores aos dos homens (Foto: Reprodução/O Globo)

Dispondo da monogamia como estrutura primária, o ideal em questão instituiu a heterossexualidade como padrão afetivo, minimizando ou apagando a existência de outras formas de amor — o que, segundo especialistas, também impactou social e psicologicamente mulheres que não se relacionassem romanticamente com homens.

“Não é sobre com quem uma mulher vai se relacionar, mas sobre a maneira como fomos socializadas. É como se a nossa vivência amorosa nos desse uma identidade. É como se só conseguíssemos nos enxergar enquanto mulheres plenas se temos um relacionamento ou estamos sendo amadas por alguém”, explica Lavínia Palma, psicóloga e fundadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Feminista.

Veras compreende que a distinção entre o sujeito e o agente dessa equação começa ainda na infância: “Nós somos ensinadas a gostar de homens e os homens são ensinados a terem hobbies. Nossas brincadeiras, nossos desenhos, são sempre pautados nisso. E os meninos podem ser super-heróis, desenvolver suas habilidades e esse gosto por si mesmos”.

A ação impositiva de amar apenas perante os desejos e as necessidades do outro configura um tipo de violência, porque presume a obrigatoriedade de negar a humanidade feminina. Difundido através da cultura e mídia globais, o mito, então, fez-se um pilar característico na construção da identidade das mulheres, além de um instrumento de dominação.

Em uma perspectiva histórica, o amor romântico ainda transformou os entendimentos afetivos, afastando as mulheres umas das outras e, inclusive, de si próprias.

“Fomos criadas para amar o outro, sobretudo o homem. Mas não fomos criadas para distribuir esse amor de forma igualitária, com outras fontes de amor, como a amizade feminina”, defende Ingrid. Assim, quando existem, os laços afetivos entre mulheres se transformam em atividades de segundo plano.

Essa lógica reforça a ideia de que os relacionamentos amorosos são uma garantia contra a solidão, tornando-os objeto de proteção máxima na vida feminina, mesmo diante dos problemas enfrentados nessa conjuntura.

Já de acordo com a psicóloga Priscilla Sanches, a estrutura social forjada em torno do mito torna a disputa por atenção masculina entre mulheres um fenômeno amplamente aceito, o que impulsiona casos de isolamento feminino. “Quão comum não é uma mulher começar um relacionamento e se afastar das amigas? Isso é extremamente comum e até normalizado. Mas não deveria”, complementa.

Somado ao crescimento das tendências individualistas, que são consideradas por diversos pensadores como uma das grandes questões do capitalismo contemporâneo, o amor romântico representa mais um obstáculo em meio a uma série de problemáticas culturalmente impostas às mulheres, como os padrões de beleza.

Entrelaços · Entrevista | Priscila Sanches

Reconhecendo as mudanças sociais, políticas e econômicas que levaram as mulheres a ocuparem novos espaços no mercado de trabalho, Gerolimich pontua que o mito romântico, inclusive, remodelou-se à atualidade para seguir perpetuando seus ideais — o que amplificou as formas de expressão da rivalidade feminina.

Uma pesquisa realizada pela Universidade do Arizona em 2018 mostra que mulheres são mais rudes umas com as outras do que com homens, ou menos tolerantes do que eles são em relação às mulheres nos locais de trabalho.

Mas comportamentos hostis refletem algo maior que um ódio estrutural ao próprio universo feminino. “Para mim, não é tanto sobre mulheres serem ensinadas a competir desde pequenas, mas sobre o fato de que essas estruturas [do mercado] foram deliberadamente criadas para manter o poder concentrado [entre homens]”, observa Gabriela Toso, presidente da Toda Cidadã, organização que democratiza conhecimentos sobre política, sociedade e cidadania para mulheres.

Embora não exposta para grande parte das mulheres em atividade, a concentração de poder notada pela comunicadora também pode ser vista em desníveis econômicos. No Brasil, 37% da população feminina empregada recebe até um salário mínimo. O índice cai para 27% entre os homens.

Aliás, conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), ter diploma universitário não corresponde à equidade salarial: em nenhum cargo específico ou estado do país a média de remuneração mensal feminina supera a masculina.

Paralelamente aos discursos contra a união feminina, as jornadas das mulheres aumentaram em diversas frentes. “Ninguém exige mais que o homem seja o total provedor [da família], mas continua-se exigindo muito da mulher: além de agora poder ser a provedora das necessidades, continua-se exigindo dela toda uma função social de cuidado”, lembra Ingrid.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que as diferenças de gênero influenciam diretamente os determinantes socioeconômicos, o que inclui o tratamento social recebido por homens e mulheres. E os resultados dessas pressões estruturais já são palpáveis.

Em 2023, o levantamento Esgotadas, da ONG Think Olga, apontou que a falta de dinheiro e a sobrecarga de trabalho são os maiores responsáveis pelo adoecimento psíquico das mulheres, chegando a atingir mais da metade das brasileiras. Para as entrevistadas, a insatisfação com relações familiares (30%) e relações com sua comunidade e suas amizades (24%) se reflete em importantes impactos emocionais.

Made with Flourish

Esses sentimentos podem ser explicados tanto pela ausência persistente da participação masculina na divisão de tarefas diárias quanto pela ambiguidade dos laços entre mulheres, que, embora social e historicamente atacados, nunca deixaram de ser os principais alicerces do cotidiano feminino.

“Se você entrar em qualquer favela aqui do Rio de Janeiro, vai ver quem cuida do filho das outras. Na maioria das casas, os homens nem estão lá. As mulheres cuidam dos filhos sozinhas. Ou com a ajuda da avó, da tia, da prima, enfim, são sempre mulheres. Mas o que ficou na noção popular? Essa história de rivalidade”, pondera Gerolimich.

Simultaneamente ao panorama desenhado pela socióloga, as complexidades e controvérsias da memória mundial conseguiram carregar agentes e forças que se propõem a resgatar os vínculos entre mulheres.

Shay e Nathália, lá do começo da reportagem, por exemplo, mudaram suas realidades: atualmente, a carioca trabalha em um portal de cultura e entretenimento de equipe 100% feminina, enquanto a paulista ressignifica suas opiniões de vida e mundo com outras amigas.

“Existe algo relevante e potente justamente na criação de laços femininos que se recusam a ocupar os lugares da rivalidade e da reprodução da opressão. Essas são lutas que travamos todo dia contra o automático que nos foi ensinado, questionando os primeiros pensamentos que aparecem em certas situações”, comenta a psicóloga Julia Almeida.

Para um futuro mais positivo, Sanches sugere a criação e manutenção de espaços em que mulheres exerçam a posição de sujeitos, não mais objetos em função de algo ou alguém. Desse modo, elas compreendem que não estão sozinhas em seus sonhos e suas dores. “Quando você se compara ou inveja algo, você quer se afastar daquilo. A primeira coisa que precisa mudar é a nossa forma de enxergar umas às outras, porque cada mulher é um pouco de nós”, propõe.

Em geral, especialistas acreditam que, das conexões globais proporcionadas pela internet aos encontros esporádicos nas calçadas, os diálogos entre mulheres pautam discussões seculares e, ainda que de forma despretensiosa, ajudam a repensar o lugar e a vez dos interesses femininos.

“Adrienne Rich fala que as conexões mais poderosas e mais temidas vêm das mulheres. Eu acho que podemos aprender muito sozinhas, mas quando aprendemos compartilhando, e quando existem outras pessoas que comungam daquilo, tudo se torna muito mais interessante”,
conclui Míguez.